A sabedoria clássica em investimentos celebra a diversificação como o pilar central de uma gestão de portfólios prudente. No entanto, os investidores enfrentam uma contradição cada vez mais evidente: carteiras que parecem amplamente diversificadas pelo número de empresas, mas que estão perigosamente concentradas pela alocação efetiva de capital.
Os Magnificent Seven representam 34,3% do S&P 500 em 2 de fevereiro de 2026, quase três vezes seu peso de 12,5% em 2016. A concentração vai além disso: as 10 maiores empresas já correspondem a 40% da capitalização total do índice, aproximadamente o dobro do nível observado entre 2015 e 2016. No fim de 2025, esse peso do top 10 chegou a 41%, superando os níveis registrados durante a bolha tecnológica de 2000.
O retorno médio anual do S&P 500, de 11,9% nos últimos 20 anos, faz com que a estratégia passiva pareça extremamente atraente. Contudo, esse desempenho esconde uma transformação estrutural que alterou profundamente o perfil de risco assumido pelos investidores.
O crescimento das estratégias passivas remodelou os mercados. Os fundos geridos passivamente passaram de 19% dos ativos de investimento nos Estados Unidos em 2010 para 48% em 2023. Isso representa mais do que economia de custos, significa uma mudança fundamental no modo como o capital flui pelos mercados.
Quando grandes volumes de dinheiro seguem mecanicamente índices ponderados por capitalização, as maiores companhias recebem fluxos desproporcionais independentemente de seu valuation, criando ciclos de retroalimentação que ampliam ainda mais a concentração. Por definição, as estratégias passivas alocam mais capital às empresas cujos preços já subiram, inclinando o mercado à sobrevalorização.
As maiores empresas do S&P 500 apresentam tanto os maiores retornos quanto a maior volatilidade ligada aos fluxos de entrada nos índices. Hoje, as 10 maiores são responsáveis por quase metade da volatilidade total do índice.
A teoria moderna de portfólios baseia-se em correlações baixas entre classes de ativos para reduzir a volatilidade. Porém, essas relações não são estáveis nem confiáveis em momentos de estresse. As correlações entre ações dos Estados Unidos e ações internacionais aumentaram significativamente na última década. A relação entre ações e títulos, pilar dos portfólios balanceados, tem mostrado instabilidade estrutural devido à inflação persistente, políticas econômicas e desequilíbrios fiscais. Quando as correlações convergem em períodos críticos, o benefício de proteção da diversificação desaparece justamente quando é mais necessário.
A concentração dentro dos veículos passivos cria oportunidades que a gestão ativa pode capturar. Em 2025, cerca de 42% do retorno total do S&P 500 veio dos Magnificent Seven, que entregaram retornos acima de 20%, contra cerca de 15% para o restante do índice. Essa dispersão de desempenho revela oportunidades importantes para uma alocação seletiva de capital.
A verdadeira diversificação vai além de simplesmente aumentar o número de ativos na carteira. Ela exige exposição a diferentes motores de retorno, sensibilidades econômicas variadas e fatores de risco descorrelacionados. Mercados emergentes oferecem dinâmicas de crescimento e tendências demográficas distintas. Renda fixa traz previsibilidade e proteção em períodos de volatilidade das ações. Commodities reagem a pressões inflacionárias e choques de oferta. Imóveis comerciais fornecem renda de aluguel vinculada a outros fatores econômicos.
A exposição cambial também merece atenção. Um portfólio concentrado em ativos denominados em dólar carrega um risco de moeda implícito que muitos investidores ignoram. As ações internacionais têm liderado os retornos recentemente, impulsionadas pela queda do dólar, o que pode indicar mudanças estruturais que exigem uma construção de portfólio mais moderna.
A gestão ativa permite ajustar dinamicamente a carteira diante de mudanças no ambiente econômico, extremos de valuation e novos riscos. Quando a concentração chega a níveis extremos, reduzir exposição a segmentos sobrevalorizados e aumentar a alocação em áreas descontadas posiciona o portfólio para eventuais movimentos de reversão à média. Quando as correlações mudam, o rebalanceamento mantém o perfil de risco desejado.
A estratégia passiva oferece vantagens incontestáveis, como baixo custo, eficiência fiscal e simplicidade. Mas simplicidade não equivale a completude. Uma abordagem exclusivamente passiva oferece exposição ao mercado sem gestão de risco, diversificação por quantidade sem considerar concentração e seguimento do benchmark sem levar em conta o valuation.
As condições que favoreceram o desempenho das estratégias passivas, como juros extremamente baixos e expansão contínua de múltiplos, mostram sinais claros de mudança. Portfólios que os investidores acreditam estar diversificados podem estar carregando riscos de concentração que não reconhecem.
Construir portfólios resilientes exige reconhecer verdades desconfortáveis. Índices ponderados por capitalização superdimensionam naturalmente as ações mais caras. Correlações variam e às vezes falham justamente nos momentos críticos. Estratégias passivas não conseguem se adaptar a mudanças estruturais, corrigir excessos de valuation ou reduzir riscos de concentração.
A verdadeira diversificação exige alocação criteriosa entre classes de ativos, geografias e motores de retorno. Exige decisões ativas sobre exposição ao risco, rebalanceamentos periódicos e disposição para se afastar do benchmark quando necessário.
O velho ditado alerta para não colocar todos os ovos na mesma cesta. Talvez a pergunta mais relevante hoje seja se os investidores percebem que, sem querer, fizeram exatamente isso enquanto acreditavam ter 500 cestas.
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