Os acontecimentos da semana ofereceram uma verdadeira aula sobre como distinguir entre espetáculo político e fatos que realmente movem os mercados. As ameaças do presidente Trump de impor tarifas a oito países europeus por causa da Groenlândia levaram o S&P 500 a cair dois vírgula um por cento na terça-feira, vinte de janeiro, eliminando mais de um vírgula dois trilhões de dólares em valor do índice. No entanto, dentro de vinte e quatro horas, Trump anunciou um acordo básico com a OTAN sobre a Groenlândia e retirou as ameaças tarifárias, provocando a maior alta do S&P 500 desde novembro e colocando o índice novamente no terreno positivo em dois mil e vinte e seis.

Essa reversão rápida demonstra exatamente o que investidores experientes entendem: o barulho geopolítico raramente se traduz em danos duradouros ao mercado quando os fundamentos permanecem sólidos. O episódio ofereceu um exemplo claro de por que reagir a manchetes fazendo alterações na carteira destrói valor. Os investidores que venderam durante a queda de terça-feira realizaram prejuízos que se mostraram desnecessários, enquanto aqueles que mantiveram disciplina recuperaram suas perdas contábeis em uma única sessão.

O encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos ocorreu nesse contexto de tensão transatlântica, com a presença de mais de sessenta chefes de Estado. O que surgiu não foi consenso, mas sim um forte choque de visões sobre integração econômica. O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, declarou que “a globalização falhou com o Ocidente”, enquanto o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng pediu que os países embarcassem no “grande navio” da globalização. O presidente francês Emmanuel Macron destacou que a Europa deve defender “um multilateralismo eficaz”, e o primeiro-ministro canadense Mark Carney observou que “esse acordo já não funciona”.

Essa divergência ideológica importa menos para os mercados do que se imagina. Embora a retórica sobre desglobalização chame atenção, a implementação real de políticas avança muito mais devagar do que o discurso político sugere. As empresas já adaptaram suas cadeias de suprimentos após as disrupções da pandemia, e seu comportamento responde a incentivos econômicos, não a discursos ministeriais.

O que deve tranquilizar os investidores é a rapidez com que os mercados absorveram o choque e se recuperaram. A força vem de diversas fontes. Estrategistas do Goldman Sachs projetam que o S&P 500 terá retorno total de doze por cento em dois mil e vinte e seis, com o lucro por ação aumentando doze por cento no mesmo ano e dez por cento no seguinte. O Morgan Stanley espera que o S&P 500 suba para sete mil e oitocentos pontos nos próximos doze meses, um ganho de quatorze por cento em relação aos níveis atuais. Essas projeções refletem confiança no crescimento dos lucros corporativos, e não na expansão de múltiplos, uma base muito mais sustentável para valorização do mercado.

Apesar das distrações políticas da semana, os fatores estruturais que sustentam as ações de tecnologia continuam se fortalecendo. A Taiwan Semiconductor registrou outro trimestre recorde e espera aumentar seus investimentos de capital em dois mil e vinte e seis para um intervalo entre cinquenta e dois bilhões e cinquenta e seis bilhões de dólares. Líderes do setor, como Mark Zuckerberg e Satya Nadella, afirmaram que estão correndo para acompanhar a forte demanda atual dos clientes, e espera-se que o investimento de capital das Big Tech ultrapasse quinhentos bilhões de dólares em dois mil e vinte e seis.

Mesmo assim, os investidores devem manter perspectiva quanto aos prazos de implementação. Wall Street espera que dois mil e vinte e seis seja um ano de ajuste para a inteligência artificial, à medida que o mercado passe a exigir retornos tangíveis. Analistas do Deutsche Bank observam que “a IA generativa será transformadora, mas não agora”. Isso não invalida a tese de investimento em IA, mas indica que as expectativas de curto prazo precisam de calibragem.

Para investidores que navegam esse cenário, vários princípios merecem atenção. Primeiro, a retórica política e a implementação real de políticas existem em universos diferentes. A ameaça de tarifas envolvendo a Groenlândia desapareceu em poucos dias porque carecia de coerência estratégica.

Segundo, o debate sobre o futuro da globalização importa muito menos para a construção de portfólios do que a realidade de que o comércio global se adapta em vez de desaparecer. As empresas continuarão otimizando cadeias de suprimentos entre fronteiras porque os incentivos econômicos têm mais peso do que posicionamentos políticos.

Terceiro, a tese de investimento em IA se apoia no avanço contínuo de infraestrutura em escala sem precedentes. O Goldman Sachs prevê que o PIB dos Estados Unidos crescerá dois vírgula sete por cento em dois mil e vinte e seis e que o Federal Reserve fará dois cortes de vinte e cinco pontos-base cada. Essa combinação de crescimento sólido e política monetária acomodatícia cria um ambiente em que os investimentos em infraestrutura tecnológica podem continuar crescendo.

Quarto, as avaliações elevadas exigem cautela. O S&P 500 negocia a um múltiplo preço-lucro futuro de vinte e duas vezes, igualando o pico registrado em dois mil e vinte e um. Isso não implica uma visão pessimista, mas sim seletividade, favorecendo empresas com crescimento comprovado de lucro.

Por fim, os acontecimentos da semana reforçaram uma verdade atemporal do investimento: os mercados respondem às manchetes com volatilidade, mas aos fundamentos com direção. Para investidores disciplinados focados em fundamentos, esse cenário continua oferecendo oportunidades que recompensam a paciência em vez do pânico.

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